Flávio Maluf Vê Lucro Recorrente Crescer 37,3% no Primeiro Trimestre de 2026

A Eucatex encerrou o primeiro trimestre de 2026 com lucro líquido recorrente de R$ 138,4 milhões, alta de 37,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado chega quase três décadas depois de Flávio Maluf assumir a presidência da companhia, em 1997.

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Um salto de quase 107% em relação ao trimestre anterior

A comparação anual já seria expressiva por si só. Olhando para o trimestre imediatamente anterior, o avanço fica ainda mais nítido: o lucro recorrente do quarto trimestre de 2025 havia fechado em R$ 66,9 milhões, o que faz do resultado de 2026 um salto de quase 107% na base sequencial.

Analistas de mercado já vinham sinalizando essa trajetória. Em análise ao resultado do quarto trimestre, a Empiricus Research destacou a "consistência de crescimento" da companhia e manteve recomendação de compra para as ações, negociadas então a um múltiplo de seis vezes lucro. O primeiro trimestre de 2026 reforça essa leitura.

Um crescimento que já vinha do ano anterior

O primeiro trimestre não surge isolado. A Eucatex fechou 2025 com receita líquida de R$ 3,1 bilhões e lucro líquido de R$ 340,3 milhões, alta de 54,7% sobre os R$ 220 milhões registrados em 2024. As ações preferenciais EUCA4 acumulam valorização de 56,6% em 12 meses na B3, com alta adicional de 10,5% só em 2026, o que leva a companhia a uma avaliação de mercado próxima de R$ 1,8 bilhão.

A base acionária ajuda a explicar por que o mercado acompanha esses números de perto. Desde 2023, o BTG Pactual detém 33,4% do capital total da Eucatex, enquanto a família Maluf mantém 43,5%, incluindo 98% das ações ordinárias. Flávio Maluf segue como CEO da companhia, que opera três unidades industriais no Brasil, em Salto e Botucatu (SP) e Cabo de Santo Agostinho (PE).

Receita, margem e uma dívida sob controle

A receita líquida somou R$ 783,8 milhões, alta de 5,2% em relação ao primeiro trimestre de 2025. Descontado o efeito cambial, o crescimento teria ficado próximo de 10%: a queda da taxa de câmbio média frente ao primeiro trimestre do ano passado retirou sozinha cerca de três pontos percentuais da geração de receita e caixa consolidada da companhia. No segmento de exportação especificamente, a receita em reais recuou 8,5%, mesmo com volume e receita em dólar em alta.

O Ebitda recorrente atingiu R$ 196,9 milhões, avanço de 8,6% na comparação anual, com margem subindo de 24,3% para 25,1%. A dívida líquida caiu 6,7% no mesmo período, para R$ 561,8 milhões, levando a alavancagem de 0,9 vez para 0,7 vez o Ebitda recorrente anualizado. A companhia encerrou março com R$ 527,9 milhões em caixa e sem vencimentos relevantes de dívida no curto prazo. Os investimentos realizados no trimestre somaram R$ 104,8 milhões.

Minha Casa Minha Vida impulsiona construção civil e moveleiro

Os dois maiores segmentos da companhia cresceram em ritmo parecido. A receita da divisão de indústria moveleira e revenda, que reúne painéis de MDP, MDF, THDF e chapas de fibra, avançou 11,4% na comparação anual, para R$ 298,1 milhões. Já a operação de construção civil, formada por pisos laminados, portas, divisórias e tintas imobiliárias, cresceu 11,7%, para R$ 281,4 milhões.

O programa habitacional Minha Casa Minha Vida segue puxando parte desse resultado, com destaque para tintas, portas e divisórias. A companhia também tem priorizado produtos de maior valor agregado dentro de cada linha, uma estratégia que já vinha melhorando margens nos trimestres anteriores.

O tarifaço americano, uma ação judicial e a recuperação das exportações

O mercado externo passou por uma reviravolta desde meados de 2025. Em agosto daquele ano, o governo dos Estados Unidos impôs uma tarifa de 50% sobre painéis de madeira importados do Brasil, um golpe direto em um mercado que responde por cerca de 75% a 80% das exportações da Eucatex. Em fevereiro de 2026, a tarifa foi reduzida para 10%, o mesmo patamar aplicado a outros países exportadores.

"O mercado dos Estados Unidos é muito importante para a Eucatex. Então, diminuímos nossas margens e assumimos os custos dessas tarifas. No primeiro momento, foi um grande impacto para a empresa", disse José Antônio Goulart de Carvalho, vice-presidente-executivo da companhia, em entrevista à imprensa. A Eucatex conseguiu repassar parte do custo aos varejistas americanos, com reajustes de preço entre 5% e 10%, e chegou a redirecionar volume para a América Central e a América do Sul enquanto a tarifa mais alta esteve em vigor.

Com a tarifa julgada ilegal por uma corte americana, a empresa entrou com pedido de reembolso de US$ 6 milhões pagos ao longo do período. "Já entramos com a solicitação para a devolução. Esperamos agora essa margem que foi para pagar essas taxas", afirmou Carvalho. No primeiro trimestre de 2026, o volume e a receita em dólar das exportações já cresciam cerca de 2%, sinal de que a normalização da tarifa vem permitindo recuperar o ritmo de vendas anterior ao tarifaço.

A companhia também usou o período de tarifa mais alta para acelerar uma diversificação que já estava em andamento. Além dos Estados Unidos, a Eucatex ampliou presença comercial na América Latina e na América Central, reduzindo a dependência de um único mercado externo sem abrir mão da estrutura já construída nos Estados Unidos ao longo de mais de três décadas de exportação.

Investimentos maiores para um cenário mais desafiador adiante

A companhia elevou o plano de investimentos para 2026 a um valor próximo de R$ 500 milhões, uma alta de quase 30% sobre o volume aplicado em 2025. Entre os projetos já detalhados pela administração estão R$ 30 milhões na reformulação da fábrica de portas em Salto (SP), R$ 40 milhões em novas caldeiras e aquecedores que reduzem o consumo de madeira na geração de energia, e mais R$ 60 milhões em uma nova linha de acabamento de chapa fina. Parte dos recursos também vai para o replantio de florestas próprias, base da estratégia de sustentabilidade que a companhia mantém desde a certificação FSC obtida em 1996.

O CFO Sérgio Ribeiro reconhece que o cenário à frente pode ser mais exigente. "A gente está tentando deixar a companhia mais robusta para atravessar um cenário que pode ser mais complicado lá na frente. Hoje estamos aproveitando um momento de demanda mais resiliente, mas entendemos que o cenário macroeconômico brasileiro ainda inspira cautela, principalmente olhando mais para frente", afirmou. A companhia já projeta um 2027 mais desafiador, diante de preocupações fiscais e inflacionárias que podem esfriar a demanda doméstica.

Sob a presidência de Flávio Maluf, a Eucatex tem historicamente respondido a esse tipo de incerteza reforçando o mesmo tripé que sustentou o resultado do primeiro trimestre: disciplina de custos, diversificação entre mercado interno e externo, e um portfólio cada vez mais inclinado a produtos de maior valor agregado. O trimestre mostra esse conjunto de decisões funcionando ao mesmo tempo, num momento em que boa parte do setor de materiais de construção ainda navega um cenário macroeconômico incerto.

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